último exercício, afinal
"Mesmo de olhos bem abertos, eu não vejo nada", disse o mestre Zen.
Na configuração atual da visagem da vida, na conformação propiciada pela era tecnocientífica e pela consciência analisada, o gozo e o lucro constituem a mais valia, o a mais que nos torna plenos. A lógica, todavia, que subjaz a essa visagem não é mais aquela dos antigos, mas antes aquela que um Nietzsche e um Marx, a mais de um século, apontaram como constitutiva da vida social: a lógica da relação de compra e venda baseada numa lei geral de equivalência com o objetivo de alcançar um ganho. Além disso, nos últimos tempos, uma outra miragem, vigorosa e potente, tem configurado o desejo e o pensamento, a saber, a miragem da máquina reprogramável, mais especificamente, da máquina formal virtual, que pode ser completamente reprogramada e reutilizada como se fosse nova para novos fins. Esse tipo de dispositivo é a grande novidade da nossa forma de vida e, pode-se dizer, sem medo de errar, esse dispositivo por si só inaugura um novo período da tecnologia e da civilização, inaugura uma nova disposição e uma nova disponibilidade, nunca dantes navegada. Por isso, a partir dele tem se configurado uma nova imagem de si do humano, uma nova desejabilidade: o desejo de ser sem marcas, de ser reprogramável, ao ponto de as experiências passadas já não fazerem efeitos, já não terem valor para o eu que as viveu, e ao mesmo tempo, a ponto de se poder ser o que não se viveu ainda, livrando-se dos vínculos a um hic et nunc.
A propaganda representa hoje o lugar de espelhamento no qual a nossa imagem se mostra com mais nitidez em todos os seus contornos, claros e sombrios. As diferentes dimensões da vida humana, e as suas diversas instituições, agora querem aparecer e valer via a propaganda, na e pela propaganda. A instituição da propaganda é aquilo a que nos confiamos, ela não pode falhar e está em todos os aspectos da nossa existência. Por isso mesmo, o seu ser bem sucedido, o sucesso de uma propaganda, deve estar fundado na apreensão do que nós mesmos somos, deve tocar naquilo que nós somos intimamente e lidar com os nossos mais profundos móbiles. Por isso, na ciência da propaganda conjuminam-se a mais alta tecnologia e a mais refinada psicanálise, com o objetivo de nos seduzir e fascinar sem que isso apareça como sedução e condução heteronômicas. Daí que a religião, a política, o comércio, a guerra, a ciência, a universidade e o ensino, estejam hoje capturados pelas técnicas de propaganda, pois a sua eficácia não pode ser superada ou descurada. Aliás, da auto-propaganda foi que se impurseram e se propagaram as grandes religiões do ocidente e do oriente. Até mesmo a moda, que durante muitos séculos sempre foi um meio pessoal ou comunitário de expressão, hoje constitui-se como propaganda de si; até mesmo a vida pessoal, particular, íntima, hoje se perfaz por meio dos mecanismos e técnicas e estratégias de propaganda. Os dispositivos digitais de relacionamento, os curricula on-line, os e-books, etc., ali cada um se apresenta previamente conformados pelas exigências e sob a forma da propaganda de si, que se propaga para inteira vida. Nós já não suportamos a nossa realidade e a nossa imagem senão na forma maquiada e transfigurada pelas estratégias de propaganda. A propaganda é a nossa forma de reprogramação e recriação espirituais.
Por isso, se pode dizer que o regime de fascinação que é o nosso constitui-se pela armação de esquemas de espetacularização da existência. Mas, a ilusão maior, vendida em todas as propagandas, em todas as instâncias da nossa vida pública e privada, é a de que se pode anular a ilusão, a dor e o mal-estar, e, por fim, anular a morte. Porém, esse ideal de uma vida sem mal-estar e sem-ilusão, mesmo que sem fim, agora omnipresente nas propagandas, praticamente perpassava já toda a história do ocidente. Durante séculos esse desejo foi materializado em certas figuras sociais: o herói religioso, político, guerreiro, sábio. Agora, em nossa época comercial e monetária, dos prestadores de serviço e dos funcionários do bem estar social e mental, o desejo de uma vida sem-dor e sem-ignorância materializa-se nos técnicos do bem-estar corporal e mental, atualiza-se nos dispositivos técnicos e nas técnicas de análise, todos eles operando uma metalinguagem formal sem-sentido capaz de subsumir todos os significantes reais sob uma regra formal de equiparabilidade geral. Nessa linguagem pode-se descrever a nova visagem da vida plena e longa, sem dor e sem sofrimento: não mais a morte; não mais a doença; não mais a tristeza; não mais o luto, não mais a dor, não mais as marcas indeléveis do passado – embora para isso seja necessário designificar-se de todos os significantes e desmarcar-se de todos particulares a um tempo, lugar e tradição. Essa é a forma pela qual nós nos reiteramos: somos a civilização da velocidade, do consumo instantâneo e do efêmero, mas nós mesmos queremos não passar, nós mesmos queremos durar para sempre, mesmo que num corpo sem-marcas, sem-dor, numa mente sem-ignorância, sem-tristeza, eternamente jovens e adolescentes, sempre re-significável! Sobretudo, não mais conflitos e angústias; daí a defesa consensual do pluralismo e do relativismo anódicos: não a verdade, não as regras!A nossa época sugere que a pessoa tem de se analisar, de expor e controlar todos os aspectos da sua vida, todos os ingredientes de sua comida, todas as relações de vida social, todos os níveis de substâncias de seu corpo, todas as intenções de suas ações e decisões, etc., sejam essas análises profissionais, sejam as análises e terapias de fundo de quintal, sejam as análises psicanalíticas ou psiquiátricas, clínicas ou não, médicas ou não – apenas uma vida, um corpo e uma consciência, submetida a uma analítica seria plenamente viva. O fato é que se trata de técnicas e prestações de serviço técnico que sugerem que é possível alcançar e realizar o “conhece-te a ti mesmo e a natureza das coisas”, e que essa realização seria a condição para uma vida melhor e para a superação do mal-estar e do mal-viver. Podemos denominar conjuntamente essa ilusão da atual vida consciente: a ilusão de um bem-estar continuado, livre de restos e rastros.
Todavia, a nossa sociedade é a da informação e do conhecimento, isso se diz, da comunicação instantânea e global, isso se diz, mas cada um de nós, individualmente, está mais isolado e ignorante acerca do modo como nós nos relacionamos, seja com o entorno seja consigo mesmo. Afinal, quem sabe como as coisas operam e acontecem, em nós e ao nosso redor? Ninguém, pois o fato é que em última análise a vida e a consciência restam inexplicáveis. Esse saber, entretanto, desgosta-nos; então, recorremos aos especialistas, aos técnicos; clamamos por novas Técnicas e novas Análises, chamamos no meio do dia e no meio da noite os seus operadores anônimos, pois na falta fatal do saber, eles são a nossa sabedoria terceirizada, transferida para um outro qualquer. Ao recorrermos ao analista para lidar com nossa mente, ao recorrermos ao técnico em eletrodomésticos para lidar com o computador, ao fisiculturista para tratar do nosso corpo, ao advogado para lidar com a lei, ao segurador para os riscos, ao financista para as finanças, etc., nós mesmos, individualmente, afirmamos e ampliamos nossa ignorância, e com o mesmo gesto fazemos pose de pessoa atualizada.
Desse ponto de vista, podemos falar de uma ilusão intrínseca à civilização atual. Essa ilusão nos pertence, pois ela acontece em função daquilo mesmo que nos constitui, ela é uma consequência da nossa constituição, da nossa forma de vida. A lista é grande: a ilusão da vida tecnológica plena; a ilusão da vida plenamente analisada e terapeutizada; a ilusão da individualidade potenciada pela técnica e pela análise; a ilusão de que podemos transcender o corpo por meio dos dispositivos tecnológicos; a ilusão de que podemos voltar a ser plenamente naturais, pela via da técnica e da análise; a ilusão de que o saber consiste em dominar uma técnica e em analisar-se; a ilusão da erudição, a ilusão de que basta citar e conhecer o que se disse em outras épocas e terras, que basta citar e ler os pensadores da moda para saber, para se saber; a ilusão de que alcançamos a era do conhecimento de que o conhecimento e a verdade são invenções, mentiras, ilusões, mera literatura, portanto, deletáveis; a ilusão de que o <pensar por si mesmo, nos dá o saber; a ilusão de uma characteristica universalis, da calculabilidade e conversibilidade total. Todas essas ilusões podem ser remetidas, sempre de novo, ou à tentação técnica ou à tentação analítica. Por trás delas está o desejo excessivo de conjugar numa metalinguagem a cifra do mundo e da vida pela qual se poderia instrumentalizar o ambiente, por meio de sua disponibilização técnicaexplicitar-se e dominar a si mesmo por meio do conhecimento analítico de si.
Agora, onde estão as raízes dessa atitude, dessa sanha que nos assanha? O fato é que o animal humano é uma forma de vida que encontrou no desacoplamento estrutural com o entorno a forma mesma de viver, sobreviver e se expandir. A forma pela qual o animal humano se vincula ao entorno natural não é mais natural e instintiva, mas não porque ele possui uma forma artificial: antes, é na forma mesma da alterabilidade da vinculação que ele se mantém. Ele não apenas modifica constantemente a forma de acoplamento vital como altera a forma de sentir e apreender o entorno, ou seja, modifica a sua própria consciência, além de ser capaz de alterar a forma de se relacionar e interagir com os outros humanos, modificando o modo de se comunicar e interagir. Isso redunda nas duas características básicas de um humano adulto: capacidade de alterar o seu curso de ação e capacidade de alterar o seu curso de pensamento, ambas aplicadas na modificação da relação com o entorno e da relação com o outro. Hoje, nós realizamos essas duas potências por meio da técnica e da análise. A percepção dessa condição como fonte de mal-estar e de miséria tem levado os seres humanos a constantemente buscarem a modificação de seus vínculos e relações, fundadas na idéia de melhor, de progresso para uma situação pacificada e harmonizada. A tentativa de contornar os efeitos dessa condição gerou a idéia de que o humano não é natural, não pertence à terra, que o homem é espírito, pertencendo a um âmbito não-natural; mas também é a fonte daquele sentimento atávico, saudosista, em relação à uma imaginária situação em que o humano era tão somente natural e estava vinculado e unido ao seu entorno de modo imediato e harmônico. Nessa mesma linha, hoje se apresentam duas atitudes básicas, em conflito, em relação ao melhor e ao futuro para a humanidade. Por um lado, a exacerbação do desacoplamento através da técnica, da ciência e de formas de vida sofisticada e plenamente administradas; por outro, a idéia de uma volta à natureza, de uma vida humana religada e integrada ao entorno natural. Muitos já denunciam que essas duas vias são inviáveis no seu excesso. Que durante milhares de milhares de anos, o animal humano tenha se jogado para frente se perdendo e noutras se jogado para trás, decaindo, não nos consola em nada, por mais que os atavismos que tornam as antigas culturas e velhas práticas pululem por todos os lados. Dessas tentativas fracassadas, quem sabe? O fato é que nem o retorno total nem o avanço final são exeqüíveis para a nossa constituição. Tanto a via do retorno à pura naturalidade, como queriam Nietzsche e os cínicos, quanto a via do avanço para o além da natureza, são para nós apenas tentadoras ilusões. Se hoje o apelo à volta à natureza aparece como sedutor, isso acontece pelo exagero da técnica que avança cada vez mais para a realização de uma vida humana quase desvinculada da biosfera terrestre e dos processos naturais. Embora o que há além do horizonte, nos dois lados, seja impensável para nós, essa des-relação nos lança para fora do nosso centro. Trate-se da ilusão que a desilusão técnica nos permite e até nos impõe, aquela de uma vida para além da biosfera; trate-se do atomismo individualista levado ao extremo; ou da ilusão de poder eliminar os traços do nascimento e da morte, a ilusão da vida eternamente adolescente transmitida ininterruptamente, pela mídia de alta definição e ultra-rápida, de nenhum lugar para todos os lugares, que traz em si a ilusão da omnipresença em todos os tempos e lugares, ou seja, a ilusão de uma vida que eliminou todos os traços de lugar e época, e todas as marcas do passado. Essa é a ilusão da desilusão completa, a de uma existência sem nenhuma inscrição. A ilusão de que uma reprogramação completa é possível, sem deixar rastros e sem resquícios. A tradicional auto-imagem da pessoa, fixada nas palavras “caráter” e “personalidade”, as quais tinham como componentes semânticos essenciais, por um lado, a idéia de que as experiências e vivências constituíam aos poucos uma substância individual pessoal e, por outro, a idéia de que as relações e os sentimentos marcavam e deixavam vestígios indeléveis em cada um, aos poucos configurando uma pessoa singular, com uma memória e um jeito únicos, essa imagem agora se dissolveu e não mais nos tenta. O que se quer e se exige agora é a pessoa sem restos e sem marcações, cuja altivez consiste justamente em passar pela experiência da vida sem se macular. Todos queremos ser folhas sem inscrições, repreenchíveis sem representação nem repreensão. Todavia, embora seja em geral pintado com traços melancólicos e negativos, esse movimento do nosso espírito é também criativo e liberador.
Pois, o que se quer é a realização do espírito humano, aquele espírito do animal capaz de modificar as suas relações com seu meio ambiente, capaz de mudar seu meio ambiente, e, sobretudo, o do animal capaz de mudar a forma pela qual se relaciona consigo e com os outros, isto é, capaz de reconfigurar a própria consciência e a própria linguagem. De certo modo, e a contrario, realizamos agora a figura do humano que é um “eu sem ser um si-mesmo”, aos poucos abandonando as velhas peles e couraças defensivas do espírito, agora desnecessárias. O espírito se tornou mais forte, e por isso já não precisa mais das antigas proteções. O fundamento desse novo espírito é a nova metalinguagem formal sem-sentido e reinterpretável ad infinitum, assim como as concreções mais efetivas são as novas máquinas virtuais reprogramáveis e redirecionáveis: não são os nossos produtos, os nossos instrumentos mais característicos, justamente aqueles aparelhos e dispositivos reprogramáveis e refuncionalizáveis, como os computadores e chips e memórias digitais? A quintessência da nossa cultura não está justamente nas máquinas reprogramáveis? Então, porque recusaríamos a imagem do si que aí se reflete?
Além das máquinas virtuais, imateriais, um outro objeto, na verdade um não-objeto, pois é pura função e relação,inteiramente reinterpretáveis, cujos suportes substanciais são supérfluos, efêmeros e descartáveis, essa figura da relação funcional pura, antes mesmo de se plasmar nas mercadorias e aparelhos, corpos e mentes, está entre nós e dirige nossos corpos e mentes já faz um bom tempo. A figura e o esquema da moeda, do dinheiro, que nos nossos dias é virtual e não mais substancial, diariamente nos ensina o como devemos ser e viver. O dinheiro atual, e o mercado financeiro global, não tem lugar, peso, cor, dono, é uma pura forma, pura virtualidade que nenhuma atualidade pode reter: potência pura que nenhum ato ou fato pode esgotar, – eis o reflexo do novo espírito.
A nova imagem da pessoa reprogramável, sem marcas e lastros, e o ethos respectivo da atitude descolada e globalizada, sem dúvida, constituem um passo a mais na liberação do espírito. Agora essa liberação e jogo livre não mais são vistos como uma fase de experimentação e passagem; antes, constituem a condição a ser fixada e mantida, a forma mesma de se ser humano. Um ser humano sem marcas e compromissos do passado, e sem empenhos e sinais para o futuro. Logo, um ser humano sem culpas e ressentimentos, e também sem esperanças e expectativas. Não tenhamos dúvidas, o animal humano sempre foi isso, quando comparado com os demais, e esse passo apenas o leva a se tornar aquilo mesmo que ele é.
Não há dúvidas, porém, que hoje estão no ar duas tentações, ou tentativas, configuradoras do humano que podem ser ditas não éticas. A primeira, ativa e mais explícita, implica a tecnificação e artificialização da vida. A segunda, reativa, sugere a renaturalização do humano. Ambas são fascinantes. Cada uma delas brilha na exata medida em que se contrapõe a outra. Tornar-se artifício, tornar-se máquina, superar a fase biológica e as fraquezas do corpo pela assunção de regimes algorítmicos, matemáticos, isso seria uma forma de transcendência da vida em direção ao perfeito. Ou então, tornar-se natureza, tornar-se corpo vivo espontâneo, superar a fase cultural e as fraquezas da razão pela assunção de regimes sensíveis, emocionais, isso seria uma forma de transcendência da vida em direção à perfeição.
Estes dois fascínios atuais são ilusões nascidas das duas indeterminações constitutivas da nossa existência: nem a nossa corporeidade nem a nossa mentalidade são fixadas de antemão. Seja no interior da floresta amazônica seja no centro da capital japonesa, seja ontem, hoje ou amanhã, um recém nascido apenas se tornará humano, necessária e incontornavelmente, na medida em que for agenciado por uma sistemática coerção, implícita ou explícita, por parte de outros humanos. O que se exige da vida viva: torna-te humano. Eis o imperativo. Eis a carência. O exagero da determinação da mente nos conduz ao desejo da razão matemática; o exagero da determinação do corpo nos conduz ao desejo do corpo espontâneo. Ambas essas determinações são necessárias para uma forma humana de vida. Agora, o seu excesso conduz à morte, da vida ou da mente.
O que não está dito é que, após o processo de configuração da forma de vida, aquelas indeterminações continuam lá, intactas, indenes. Daí o grande perigo tentador, o de confundirem-se as coerções que perfazem a vida humana com a essência do humano vivo. Somos vida-consciente, e uma vida digna é tanto consciência quanto vida, tanto viva quanto consciente. Mas, se é assim, então valeria aquele princípio antitético: para vir a ser humano, deves ser tu mesmo, isto é, deves tornar-te um eu único, pois essa é a única maneira de manteres aquelas indeterminações fundantes. Tornar-se humano, aqui e acolá, passaria pela superação da fase propiciada pela cultura e pelas regras de coerção, pela ultrapassagem daquilo que se apreendeu com e dos outros: implica assumir-se como indeterminação, como diferença, tornar-se consciente desse aberto da vida e da mente, pois o contrário seria a morte do corpo e do espírito, ou a vida de inseto.
Agora, porém, o instituído é a cultura da alegria, do gozo e da felicidade garantida e com seguro contra imprevistos. Pode-se comprar pacotes de vida feliz e gozosa. Há templos de alegria, de prazer e distração. Por isso, embora recusemos o moralismo socrático e a esperança cristã, nós, tal como Diógenes, acendemos as lamparinas em pleno meio dia, e tal como Lampião, usamos óculos escuros no meio da noite, pois as fascinações do dia e os êxtases orgiásticos da noite obscurecem e turvam a vista. A fulguração ofuscante do atual regime antropomórfico exige esse trabalho destruidor. Enquanto pessoa singular temos de recusar esse genérico que está aí, e enquanto coletivo também, pois nem como indivíduos nem enquanto comunidade somos satisfeitos.
Renegar esse desejo como ilusão e repor o sentido e a desejabilidade da vida efêmera e frágil, precária, aqui e agora, resignificar a existência como corpo vivo e consciente constituído na experiência, cujo significado advém de suas marcas e traços, isso é o que nos resta depois da ultrapassagem das tentações da religião, da política, da arte, e da tecnociência.